Conflito de gerações: como manter a fé bíblica sem perder filhos e netos


Introdução 

Há um tipo de tristeza que não faz barulho, mas pesa como pedra: a sensação de que os filhos e netos estão “escorregando” dos princípios bíblicos — não de um dia para o outro, mas lentamente, como quem se afasta do porto sem perceber. Para muitos cristãos, a dor não é só moral; é espiritual e familiar: “Será que a fé da nossa casa vai terminar comigo?”​

Esse conflito não se resume a música, roupa, internet ou política; é um choque de visão de mundo. A geração dos pais cresceu aprendendo que autoridade é algo a ser honrado e que a verdade é algo a ser recebido; já muitos jovens da geração atual foram educados a suspeitar de instituições e a tratar a própria experiência como bússola final. O resultado costuma ser um ciclo cruel: quanto mais os pais apertam, mais os filhos se fecham; quanto mais os filhos se afastam, mais os pais se desesperam.​

A Escritura, porém, não romantiza famílias “perfeitas” e não ignora o conflito entre gerações. Ela mostra feridas reais e, ao mesmo tempo, oferece um caminho de fidelidade: firmes na verdade, mansos no tom, perseverantes no amor e confiantes de que Deus continua alcançando gente — inclusive os nossos. Este texto quer ajudar você a enxergar o que está por trás do conflito de gerações e apresentar atitudes práticas que preservam o relacionamento, fortalecem a influência espiritual e mantêm a Bíblia no centro.​

O conflito é antigo (e bíblico)

Um erro comum é imaginar que “na nossa época era mais fácil” e que o problema atual é puramente tecnológico. A tecnologia acelerou e amplificou, mas o coração do ser  humano continua o mesmo, e a Bíblia registra tensões familiares profundas em contextos sem rede social nenhuma.​

Pense no Sacerdote Eli, que viu seus filhos desprezarem as coisas santas e trazerem vergonha ao culto; a narrativa não coloca a culpa em “influências externas”, mas mostra negligências internas e consequências espirituais sérias (ver 1Sm 2–3). Pense também em Davi e Absalão: uma casa marcada por pecado não tratado, feridas acumuladas e rebelião aberta (2Sm 13–18). Esses relatos não existem para apontar dedos, mas para lembrar que a fé não é “automática” dentro da família: ela precisa ser ensinada, encarnada e cultivada — e mesmo assim os resultados não estão sob o controle humano.​

Ao mesmo tempo, a Bíblia também mostra heranças espirituais exemplares e realistas. Paulo lembra Timóteo da fé que habitou primeiro em sua avó e em sua mãe (2Tm 1:5) e o chama a permanecer na Palavra que aprendeu desde a infância (2Tm 3:14–15). Isso ensina duas coisas: (1) transmissão de fé é um processo longo e intencional; (2) Deus usa avós e pais como instrumentos reais, não como figurantes.​

O que a Bíblia  ordena aos pais (sem prometer controle)

Para nós, é libertador voltar ao coração de Deuteronômio 6:4–9: a fé é ensinada no caminho, em casa, no ritmo da vida — não apenas em “discursos” pontuais exaustivos. O texto descreve uma pedagogia espiritual contínua: conversar, repetir, lembrar, vincular a Palavra ao cotidiano, palavra a vivência, experiência, não como algo filosófico apenas. Isso confronta dois extremos comuns: a omissão (“um dia eles aprendem na igreja”) e a rigidez (“aqui em casa ninguém questiona”).​

Outro texto frequentemente citado é Provérbios 22:6. Muitos o tratam como uma promessa matemática (“se eu fizer certo, o resultado é garantido”), e quando o filho se desvia, a culpa vira condenação. Provérbios, porém, é literatura de sabedoria: apresenta princípios gerais sobre a vida diante de Deus, não contratos de resultado. A aplicação madura é: a formação no caminho certo importa profundamente, mas Deus continua sendo Deus — e os filhos continuam sendo agentes morais responsáveis que necessitam de salvação tanto quanto nós.​

No Novo Testamento, há uma combinação preciosa de firmeza e mansidão. Pais são advertidos a não provocar os filhos à ira, mas criá-los na disciplina e admoestação do Senhor (Ef 6:4), e a não exasperá-los, para que não desanimem (Cl 3:21). Esses textos não enfraquecem a autoridade parental; eles purificam essa autoridade do autoritarismo e da dureza, que podem até produzir conformidade externa por um tempo, mas frequentemente destroem a confiança e o diálogo.​


Por que parece pior hoje

A geração mais nova não está apenas “mais rebelde”; ela foi formada em outro ecossistema de ideias. Três mudanças pesam bastante.​

Primeiro, a mudança na noção de verdade. Muitos jovens foram ensinados a pensar que a verdade é algo “construído” pela cultura e pela experiência; por isso, uma frase como “a Bíblia diz” pode soar, para eles, como “um grupo impôs sua visão”.​

Segundo, a desconfiança institucional. Escândalos, polarização e discursos agressivos — inclusive em ambientes cristãos — fizeram muitos associarem “tradição” com “hipocrisia”. Nesse cenário, a coerência pessoal vale mais do que a posição teórica; é por isso que a pergunta não dita deles costuma ser: “Isso é real na vida de vocês?”​

Terceiro, a concorrência de discipulados. Se antes a igreja e a família eram as principais formadoras, hoje o celular oferece catequeses diárias, emocionais e repetidas, moldando desejos, medos e certezas. 

O que não pode ser negociado

O conflito de gerações não se resolve trocando a verdade por aceitação. O verdadeiro evangelho chama pais e filhos ao arrependimento e à fé, e Cristo permanece o centro da esperança familiar (Jo 14:6; At 4:12). Isso significa que os princípios bíblicos não são “preferências de uma geração”, mas expressão do senhorio de Deus sobre todas as gerações.​

Também não é negociável a forma cristã de sustentar a verdade. A Escritura chama o povo de Deus a falar a verdade em amor (Ef 4:15) e a responder com mansidão e temor (1Pe 3:15). Quando a defesa da fé se torna gritaria, sarcasmo e humilhação, o conteúdo pode até estar correto, mas o espírito contradiz o evangelho e fecha portas.​

Por fim, não é negociável a confiança no agir de Deus. Pais não são o Espírito Santo e não convertem ninguém; eles plantam e regam a santa semente (evangelho), mas Deus dá o crescimento (1Co 3:6–7). Essa verdade protege contra duas tentações: a soberba (“eu salvei meus filhos”) e o desespero (“perdi meus filhos para sempre”).​

Um caminho prático (7 passos)

  1. Ore de forma específica e perseverante.​
    Use o padrão bíblico de levar ansiedades a Deus e pedir sabedoria (Fp 4:6–7; Tg 1:5).​

  2. Troque discursos por perguntas.​
    Perguntas como “O que te fez pensar assim?” e “Que experiências te marcaram?” ajudam a sair do ringue e entrar na sala de conversa (Tg 1:19).​

  3. Defina o alvo: proximidade antes de controle.​
    Filho controlado pode continuar longe; filho amado tende a continuar conversando. O pai do filho pródigo mantém amor, dignidade e esperança mesmo no desgaste (Lc 15).​

  4. Pratique convites leves para a Palavra.​
    Em vez de “você tem que voltar”, proponha: “vamos ler um Evangelho juntos, uma vez por semana?”. O objetivo inicial é reabrir contato com Jesus nas Escrituras (Jo 5:39).​

  5. Cultive uma casa emocionalmente segura.​
    Onde há zombaria e ironia, a verdade não entra; onde há acolhimento, a verdade pode ser ouvida com menos defesa. O padrão bíblico de fala que edifica e transmite graça é essencial (Ef 4:29).​

  6. Seja coerente no privado.​
    Muitos jovens rejeitam “princípios” porque viram incoerência: dureza em casa e espiritualidade pública; moralismo sem misericórdia; exigência sem pedido de perdão. A Bíblia chama para integridade e exemplo, não teatro religioso (Mt 23).​

  7. Busque ajuda de uma Igreja Bíblica e comprometida com a Verdade.​
    Às vezes, a voz que o filho escuta não é a do pai — e isso não é derrota; é graça. Deus usa o corpo de Cristo para exortar e consolar (Hb 3:13).​


Força na jornada e que Deus nos Ilumine.

Rev. Renê Montarroios



Tipos de sermões que atrapalham o culto

 


Tipos de sermões que atrapalham o culto 

Robson Moura Marinho 

A Arte de Pregar – A Comunicação na Homilética. São Paulo: VIDA NOVA, 1999. 192 p. p. 20-23. 

Apenas para ilustrar, vamos fazer uma rápida classificação dos sermões que mais atrapalham o culto. Se você freqüenta igreja há vários anos, é provável que já se tenha encontrado com alguns desses sermões mais de uma vez. A seguir, descrevem-se os tipos de sermão que atrapalham o culto. 


1) O SERMÃO SEDATIVO – É aquele que parece anestesia geral. Mal o pregador começou a falar e a congregação já está quase roncando. Caracteriza-se pelo tom de voz monótono, arrastado, e pelo linguajar pesado, típico do começo do século, com expressões arcaicas e carregadas de chavões deste tipo: "Prezados irmãos, estamos chegando aos derradeiros meandros desta senda", Porque não dizer: "Irmãos, estamos chegando às últimas curvas do caminho"? Seria tão mais fácil de entender. Ficar acordado num sermão desse tipo é quase uma prova de resistência física. Como dizia Spurgeon: "Há colegas de ministério que pregam de modo intolerável: ou nos provocam raiva ou nos dão sono. Nenhum anestésico pode igualar-se a alguns discursos nas propriedades soníferas. Nenhum ser humano que não seja dotado de infinita paciência poderia suportar ouvi-los, e bem faz a natureza em libertá-lo por meio do sono".


2) O SERMÃO INSÍPIDO – Esse sermão pode até ter uma linguagem mais moderna e um tom de voz melhor, mas não tem gosto e é duro de engolir. As idéias são pálidas, sem nenhum brilho que as torne interessantes. Muitas vezes é um sermão sobre temas profundos, porém sem o sabor de uma aplicação contemporânea, ou sem o bom gosto de uma ilustração. É como se fosse comida sem sal. É como pregar sobre as profecias de Apocalipse, por exemplo, sem mostrar a importância disso para a vida prática. O pregador não tem o direito de apresentar uma mensagem insípida, porque a Bíblia não é insípida. O pregador tem o dever de explorar as belezas da Bíblia, selecioná-las, pois são tantas, e esbanjá-las perante a congregação. 


3) O SERMÃO ÓBVIO – É aquele sermão que diz apenas o que todo mundo já sabe e está cansado de ouvir. O ouvinte é quase capaz de "adivinhar" o final de cada frase de tanto que já ouviu. É como ficar dizendo que roubar é pecado ou que quem se perder não vai se salvar (é óbvio). Isso é uma verdade, mas tudo o que se fala no púlpito é verdade. Com raras exceções, ninguém diz inverdades no púlpito. O que falta é apenas revestir essa verdade de um interesse presente e imediato. 


4) O SERMÃO INDISCRETO – É aquele que fala de coisas apropriadas para qualquer ambiente menos para uma igreja, onde as pessoas estão famintas do pão da vida. Às vezes, o assunto é impróprio até para outros ambientes. Certa ocasião ouvi um pregador descrever o pecado de Davi com Bate-Seba com tantos detalhes que quase criou um clima erótico na congregação. Noutra ocasião, uma senhora que costumava visitar a igreja confessou-me que perdeu o interesse porque ouviu um sermão em que noventa por cento do assunto girava em torno dos casos de prostituição da Bíblia, descritos com detalhes. E acrescentou: "Achei repugnante. Se eu quiser ouvir sobre prostituição, ligo a TV". De outra vez, um amigo me contou de um sermão que o fez sair traumatizado da igreja, pois o pregador gastou metade do tempo relatando as cenas horrorosas de um caso de estupro. Por favor, pregadores: o púlpito não é para isso. Para esse tipo de matéria existem os noticiários policiais. 


5) O SERMÃO REPORTAGEM – É aquele que fala de tudo, menos da Bíblia. Inspira-se nas notícias de jornais, manchetes de revistas e reportagens da televisão. Parece uma compilação das notícias de maior impacto da semana. É um sermão totalmente desprovido do poder do Espírito Santo e da beleza de Jesus Cristo. É uma tentativa de aproveitar o interesse despertado pela mídia para substituir a falta de estudo da Palavra de Deus. Notícias podem ser usadas esporadicamente para rápidas ilustrações, nunca como base de um sermão. 


6) O SERMÃO DE MARKETING – É aquele usado para promover e divulgar os projetos da igreja ou as atividades dos diversos departamentos. Usar o púlpito, por exemplo, para promover congressos, divulgar literatura, prestar relatórios financeiros ou estatísticos, ou fazer campanhas para angariar fundos, seja qual for a finalidade, destrói o verdadeiro espírito da adoração e, portanto, atrapalha o culto. A Igreja precisa de marketing, e deve haver um espaço para isso, mas nunca no púlpito. Isso deve ser feito preferivelmente em reuniões administrativas. 


7) O SERMÃO METRALHADORA – É usado para disparar, machucar e ferir. Às vezes a crítica é contra um grupo com idéias opostas, contra administradores da igreja, contra uma pessoa pecadora ou rival ou mesmo contra toda a congregação. Seja qual for o destino, o púlpito não é uma arma para disparar contra ninguém. Às vezes o pregador não tem a coragem cristã de ir pessoalmente falar com um membro faltoso e se protege atrás de um microfone, onde ninguém vai refutá-lo, e dispara contra uma única pessoa, sob o pretexto de "chamar o pecado pelo nome". Resultado: a pessoa fica ferida, todas as outras, famintas, e o sermão não ajuda em nada. 


Às vezes o disparo é contra um grupo de adultos ou de jovens supostamente em pecado. Não é essa a maneira de ajudá-los. Convém ressaltar que chamar o pecado pelo nome não é chamar o pecador pelo nome. Chamar o pecado pelo nome significa orar com o pecador e se preciso chorar com ele na luta pela vitória. A congregação passa a semana machucando-se nas batalhas de um mundo pecaminoso e de uma vida difícil e chega ao culto precisando de remédio para as feridas espirituais, não de condenação por estar ferida. Em vez de chumbá-la com uma lista de reprovações e obrigações, o pregador tem o dever santo de oferecer o bálsamo de Gileade, o perdão de Cristo como esperança de restauração. As obrigações, todo mundo conhece. Nenhum cristão desconhece os deveres do evangelho. Em vez de apenas dizer que o cristão tem de ser honesto, por exemplo, mostre-lhe como ser honesto pelo poder de Cristo. Isso é pregação com poder.


Todos esses sermões mencionados acima atrapalham o culto mais do que ajudam. Prejudicam o adorador, prejudicam a adoração. São vazios de poder. Se você quer ser um pregador de poder, busque a Deus, gaste dezenas de horas no estudo da Bíblia antes de pregá-la, experimente o perdão de Cristo e estude os recursos da comunicação que ajudam a chegar ao coração das pessoas. 


(fonte: MARINHO, Robson Moura. A Arte de Pregar – A Comunicação na Homilética. São Paulo: VIDA NOVA, 1999. 192 p. p. 20-23.) 


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